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Deu a louca

Narrador do Esporte Interativo é apaixonado pelo futebol da… Bolívia

Jorge Iggor Collaro carrega um inusitado gosto pelos clubes e pela seleção da Bolívia

Jorge Iggor Collaro acompanha tudo sobre o futebol boliviano desde 2012 (Foto: Acervo pessoal)
Jorge Iggor Collaro acompanha bem o futebol boliviano desde 2012 (Foto: Acervo pessoal)

Quando Jorge Iggor Collaro está concentrado diante de um computador na redação do Esporte Interativo, vibrando como qualquer torcedor, às vezes um desavisado percebe que se trata de um jogo do Campeonato Boliviano ou da seleção da Bolívia. Já virou folclore esse interesse inusitado. “Por que isso? Você nasceu lá?”, perguntam. Daí o narrador, natural do Rio de Janeiro, tem que dar mais uma de tantas explicações.

Jorge Iggor é muito fã do futebol boliviano. Talvez o maior na imprensa esportiva brasileira. A mania começou em 2012, depois que o seu Santos encarou dois times de La Paz na Libertadores, o Strongest e o Bolivar. A curiosidade sobre os adversários levou a um encantamento pelo país que é apaixonado por futebol, mesmo com uma Copa América em 1963 como único sucesso internacional entre seleção e clubes.

“Passei a ter curiosidade sobre os motivos de o futebol causar uma mobilização tão grande na Bolívia, que nunca teve um passado vitorioso. O país para quando a seleção joga”, conta o narrador, de 32 anos, também admirador da imprensa esportiva dos vizinhos. “A Bolívia não é um país enorme, mas o público consumidor de futebol é grande. O volume de produção chega a ser maior do que em grandes centros do Brasil”.

Perrengues

Em entrevista ao Verminosos por Futebol, Jorge Iggor fala um pouco sobre sua relação com o futebol boliviano, pouco comum no Brasil, e sobre os perrengues que sofre para conseguir assistir a jogos a 3 mil km de distância.

“É preciso gostar muito do futebol boliviano para ver os jogos no Brasil”

Verminosos por Futebol – Desde quando você acompanha o futebol boliviano?
Jorge Iggor Collaro – Desde 2012, quando o Santos, um dos times pelos quais torço, enfrentou o Strongest na estreia da Libertadores, e depois nas oitavas-de-final, ao vencer de 8 a 0. Fui começando a me inteirar sobre o futebol boliviano, principalmente os dois clubes, que são os principais de La Paz. Sempre tive curiosidade por equipes e seleções mais fracas, inclusive da Bolívia, mas ali nascia o interesse de verdade.

Verminosos – Você acompanha só os clubes ou também a seleção?
Jorge Iggor – Passei a acompanhar a seleção também. Até porque a seleção é formada quase que exclusivamente por jogadores que jogam no país. Os clubes de La Paz dominam, apesar de não ser a cidade mais rica, que é Santa Cruz de la Sierra. Passei a ter curiosidade sobre os motivos de o futebol causar uma mobilização tão grande na Bolívia, que nunca teve um passado vitorioso. O país para quando a seleção joga, mesmo tendo vencido somente uma Copa América (em 1963). A vaga na Copa do Mundo de 1994, por exemplo, foi comemorada como se tivesse conquistado o título.

Verminosos – Com que periodicidade você se informa sobre o futebol do país?
Jorge Iggor – Confesso que teve um período até 2016 em que eu acompanhava mais, principalmente quando o Bolivar foi semifinalista da Libertadores de 2014, que foi meu auge de interesse. Com o desempenho ruim nas Eliminatórias de 2018 passei a acompanhar menos, e a rotina de trabalho do Esporte Interativo me prejudicou. Me informo pelos sites dos jornais Pagina Siete e La Razón e pelas rádios Panamericana e Patria Nueva, essa última estatal. Há ainda as emissoras Unitel, canal equivalente a Globo no país, e a Bolivia TV, estatal, que possuem equipes que acompanham a seleção e os principais clubes. A Bolívia não é um país enorme, mas o público consumidor de futebol é grande. O volume de produção chega a ser maior do que em grandes centros do Brasil.

Verminosos – Os brasileiros levam a sério essa sua paixão? Tem algum amigo boliviano que se impressiona com isso?
Jorge Iggor – Por incrível que pareça não tenho amigo boliviano. Já troquei mensagens com jornalistas bolivianos no Twitter, mas só isso. No Esporte Interativo essa minha relação com o futebol da Bolívia já foi mais folclore, hoje o pessoal entendeu. Quando tô sentado vendo jogo da seleção da Bolívia, inclusive torcendo, eles já sabem que é sério. No início eu tinha que dar milhões de explicações. “Você nasceu lá?”, perguntavam. Quando aparece um desavisado, geralmente recebo as mesmas perguntas de sempre, e então explico mais uma vez.

“Quando tô sentado vendo jogo da seleção da Bolívia, inclusive torcendo, eles já sabem que é sério. No início eu tinha que dar milhões de explicações”.

Verminosos – Dá para assistir a muitos jogos da Bolívia no Brasil?
Jorge Iggor – Gostaria de ter uma antena para ver o máximo possível na minha casa. Como moro em apartamento, é inviável. Então vejo quase tudo via internet. Os jogos de Libertadores, Sul-Americana e Eliminatórias passam em TVs brasileiras. Os outros jogos preciso achar na internet. O Campeonato Boliviano é exibido em TV fechada, então é difícil ver por aqui. Agora o Bolivar transmite os jogos com mando de campo no Youtube. Isso inclusive gerou um grande debate sobre direitos de transmissão. O La Razón mostrou, por exemplo, uma comparação com os valores de outros país. E o Equador, que está num patamar parecido, fatura 10 vezes mais com direitos de transmissão. Esse projeto do Bolivar tem despertado uma consciência dos demais clubes e dos torcedores de que é possível faturar mais, de que o produto está subvalorizado.

Verminosos – Qual a situação mais engraçada que você já viveu para ver um jogo do futebol boliviano?
Jorge Iggor – Passo muito perrengue, com frequência. Às vezes acontece de a rodada das Eliminatórias ter quatro jogos transmitidos no Brasil, e o único que não é acaba sendo o da Bolívia. Daí preciso correr atrás de links na internet, ou então conferir em rádios. É preciso gostar muito e ter muito interesse para acompanhar os jogos no Brasil.

“Às vezes acontece de a rodada das Eliminatórias ter quatro jogos transmitidos no Brasil, e o único que não é acaba sendo o da Bolívia”.

Verminosos – Os bolivianos sabem que um time brasileiro tem o apelido de Bolívia Querida?
Jorge Iggor – Não sei se é algo muito difundido por todo mundo que gosta de futebol. O portal Late fez em 2013 uma matéria sobre o Sampaio Corrêa, que usa as cores da Bolívia. Os mais apaixonados por futebol, que acompanham o que acontece no resto do continente, com certeza sabem. O boliviano deve sentir orgulho por ver que um centro que não tem tradição no futebol recebe uma homenagem como essa no país que venceu mais Copas do Mundo.

Verminosos – Você tem camisas da seleção ou de clubes bolivianos?
Jorge Iggor – Não tenho, pois não é fácil de achar no Brasil. E os raros sites que vendem aqui colocam um preço muito alto. Além disso, a Bolívia não é um destino dos meus amigos que fazem turismo. Quando a seleção brasileira for a Bolívia nas Eliminatórias (Nota do Verminosos: A entrevista foi realizada antes do jogo de outubro), vou encomendar uma camisa ao Leonardo Baran, colega do Esporte Interativo que acompanha a equipe.

Verminosos – Está nos planos a ida a Bolívia?
Jorge Iggor – Nunca fui a Bolívia, e gostaria muito de ir. Principalmente a Santa Cruz de la Sierra, casa do Blooming e do Oriente Petrolero, onde não há o incômodo da altitude. Tenho colegas que já sofreram em La Paz. Vou precisar de uma boa preparação médica para ir ao Hernando Siles, quem sabe para ver o Strongest, o Bolivar e a seleção. É o principal estádio do país, onde eles venceram a Copa América. Está nos meus planos, falta um pouco de tempo e de coragem.

A Bolívia tem uma das seleções menos expressivas da América do Sul (Foto: Reprodução)
A Bolívia tem uma das seleções menos expressivas da América do Sul (Foto: Reprodução)

Verminosos – Há duas décadas, a Bolívia parecia um bicho-papão, sendo a primeira seleção a vencer o Brasil em Eliminatórias de Copa do Mundo, em 1993. Por que o futebol boliviano parou no tempo?
Jorge Iggor – Isso é um debate no país, até os bolivianos têm dificuldade de entender. A geração dos anos 90 era muito boa, com (Marco) Etcheverry e (Julio César) Baldivieso, e levou a Bolívia a sua única Copa do Mundo. Hoje a safra é limitada. Existem algumas teses para isso entre os bolivianos. Primeiro, falta experiência internacional aos jogadores, que não têm contato diário com as principais ligas do mundo. O segundo é a questão da altitude, que ajuda e atrapalha. Para uns há o entendimento de que a Bolívia é refém da altitude de La Paz, de que deveria aprender a igualar-se jogando no nível do mar. Mas aí alguns pensam: “Como é que vamos abrir mão de uma vantagem que é temida há 50, 60 anos?” Com esse impasse, não se sai do lugar.

Além disso, o futebol boliviano está enlameado, toda a diretoria da federação chegou a ser presa, e a cartolagem dos clubes está mais preocupada em fazer política. O campeonato é mal organizado, os estádios não têm estrutura e os horários são confusos. A seleção sofre com muitas trocas de técnico e os jogadores entram em rota de colisão com dirigentes. Os problemas são muito semelhantes com o que sofria anos atrás o futebol brasileiro, que conseguiu dar alguns passos em caminho positivo, apesar de algumas de nossas mazelas. Ao contrário de países como a Venezuela, por exemplo, o futebol da Bolívia caminhou para trás.

> Jorge Iggor Collaro, de 32 anos, é narrador do Esporte Interativo desde 2007, com passagens pelas rádios Carioca, Grande Rio e Brasil, do Rio de Janeiro; Record, de São Paulo; e Verdes Mares, de Fortaleza.


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