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Deu a louca

Patrício, um raro torcedor do Tiradentes

Jogo do Tiradentes, no estádio Presidente Vargas, em Fortaleza. Não importa o adversário, sobra espaço onde Patrício Trajano Rocha pode […]

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Patrício Trajano Rocha em frente à sede do Tiradentes, clube modesto da periferia de Fortaleza

Jogo do Tiradentes, no estádio Presidente Vargas, em Fortaleza. Não importa o adversário, sobra espaço onde Patrício Trajano Rocha pode se sentar no setor reservado aos fãs de seu time de coração. Um raro torcedor do clube, que disputa a 1ª divisão do Campeonato Cearense, o rapaz de 30 anos acostumou-se a ser voz solitária nas arquibancadas.

Segundo ele, o maior número de torcedores que já viu numa partida foram cinco. “Só aparecem uns gatos pingados, mesmo em jogos em casa”, conta Patrício. A desvantagem numérica lembra o velho ditado da torcida que, de tão pequena, cabe num Fusca. “Se aglomerar direitinho, caberia até numa moto”, brinca.

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Na foto de 1990, Patrício era mascote do Tiradentes, que contava na época com Jorge Veras e Argeu dos Santos, hoje técnicos (Foto: Acervo pessoal)

A paixão de Patrício pelo Tiradentes, fundado por policiais militares em 1961, surgiu por influência do pai, Marcelo Rocha, jogador do clube por sete anos e supervisor durante outros 35. Mal andava, o garoto já vestia a camisa azul-grená do Tigre da PM. Levado pelo pai, ele entrou em campo como mascote ao lado da equipe pela primeira vez aos quatro anos.

O ritual se repetiu em quase todas as partidas até os seus 15 anos, quando a idade tornou-se incompatível com a função. “Eu era uma espécie de torcedor de luxo. Assistia aos jogos, era amigo dos jogadores e ainda entrava em campo”, relembra.

Com os anos, Patrício percebeu que eram constantes as derrotas do clube para os grandes da capital cearense – Ceará, Fortaleza e Ferroviário. “Como eu era muito novo, não tinha noção de que torcia para um time mediano”, explica. No tempo de colégio, a marcação dos colegas era cerrada. “Quando o Tiradentes perdia, todo mundo tirava sarro. Às vezes dava vontade de nem ir para a aula, o jeito era entrar na sala bem caladinho”, relata o rapaz, hoje administrador de empresas.

Nas ruas, Patrício sempre ouve risinhos de deboche após dizer que torce para o Tigre da PM. O preconceito é tão latente que, segundo ele, às vezes vira compaixão. “Quem for torcedor do Tiradentes nem paga ingresso, pois os bilheteiros têm pena e deixam você entrar de graça”, revela.

Se aglomerar direitinho, caberia até numa moto”. Patrício Trajano Rocha, ao ser questionado se a torcida do Tiradentes cabe num Fusca.

Para aumentar a representatividade da torcida, o rapaz já fez de tudo. Em alguns jogos, ele costuma levar amigos torcedores de outros times, para fazer número. Na busca de outros fãs do Tigre, em 2006 ele criou uma comunidade em homenagem ao clube no Orkut. Até hoje só apareceram outros seis integrantes. “É tão difícil encontrar um torcedor do Tiradentes que, quando isso ocorre, é como se eu me olhasse no espelho”.

O clube disputou todas as edições do Campeonato Cearense entre 1969 e 2002, quando caiu para a 2ª divisão. Desde então vive uma gangorra entre as divisões, atualmente estando na elite estadual desde 2011. Apesar de não ter torcida, o Tigre se mantém graças à renda de R$ 34 mil mensais, fruto da contribuição voluntária de policiais militares no contracheque. “O Tiradentes já foi o segundo time do cearenses. Hoje, como só joga poucos meses por ano, acabou esquecido”, situa.

Raras alegrias

As duas décadas e meia de arquibancada de Patrício foram de poucas alegrias. Mas quando vieram, foram bastante festejadas. Para o torcedor, a campanha mais memorável foi a do Campeonato Cearense de 1988, quando o Tiradentes conquistou um turno com vitória diante do Ferroviário e sagrou-se vice-campeão estadual. “Aquele era um timaço, lembro até hoje da escalação”, orgulha-se.

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Torcedor de luxo (Foto: Acervo pessoal)

O ano de 1992 também foi marcante, com o título conquistado no tapetão e dividido com Fortaleza, Ceará e Icasa. “Acompanhei o julgamento pelo rádio. Como nunca ganhávamos nada, comemorei como se fosse uma vitória dentro de campo”.

Para seu azar, Patrício não assistiu à maior vitória do Tiradentes: a goleada de 10 a 0 sobre o Calouros do Ar, pelo Estadual de 1995, no estádio Elzir Cabral, do Ferroviário. Por achar que a partida não seria interessante, preferiu ficar em casa. Acabou se arrependendo para sempre. “Essa foi uma das maiores frustrações na minha vida esportiva”.

Até o pai se impressiona com a paixão do filho pelo Tiradentes. “Mesmo eu, que trabalhei no clube durante quatro décadas, nunca virei torcedor. Sempre tive amor de funcionário”, admite Marcelo Rocha, torcedor do Ferroviário. Apesar de o Tigre ser muito menor do que já foi, Patrício promete continuar fiel ao time, independente da divisão em que esteja. “Nunca pensei em desistir de torcer pelo Tiradentes”.

Saiba mais

  • Pai de Patrício, Marcelo Rocha foi lateral-direito do Tiradentes entre 1965 e 1972, quando encerrou a carreira. A partir daí até o ano de 2007, foi supervisor do Tigre da PM.
  • O avô materno de Patrício, Vicente Trajano, foi volante do Ferroviário nos anos 50 e depois virou técnico. Treinador do Tiradentes em parte do Estadual de 1992, ele morreu em 1999.

Esta matéria, assinada pelo autor deste blog, foi publicada no jornal O Povo, em 23 de março de 2008, na série Verminosos por Bola. A idade de Patrício Trajano Rocha foi atualizada, assim como o número de integrantes na comunidade do Tiradentes no Orkut (na época, só havia o Patrício).


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