Fortaleza tem 56 ligas de bairros, 2 mil times amadores, 50 mil jogadores e 200 campos. Esse mundo à parte será tema de série de reportagens do Verminosos por Futebol.

CANTA GALO – PRA JOGAR, TEM QUE MADRUGAR

O racha mais antigo de Fortaleza tem também o horário mais esquisito. Antes do canto do galo, a turma já está a caminho do Canta Galo.

09/05/2016 por Rafael Luis Azevedo
Quando tem feriado, ao invés de não ter o racha, a gente faz é dois na semana.
Ivan Sampaio

Quatro da manhã de sábado. Ainda é hora de sono pra quase todo mundo, mas não Ivan Sampaio. Os galos da vizinhança nem despertaram, e ele já pulou da cama. Rotina que se repete toda semana há duas décadas. Verminoso por bola, o cearense organiza o racha de futebol com horário mais esquisito de Fortaleza: o Canta Galo. Pra jogar nele, tem que madrugar.

Também, pudera. Às 6h, o juiz apita. E a escalação obedece ordem de chegada. Assim, é preciso levantar cedo para estar entre os jogadores que disputarão o 1º tempo. “Faço a lista de presença às 5h40. Uma vez, cheguei às 5 e pouco, e mesmo chovendo já tinha uns 20 caras esperando”, surpreende-se Ivan, de 59 anos, promotor de turismo quando não está jogando bola.

O Canta Galo surgiu em 1994, por iniciativa de um grupo de amigos que queria um bate-bola antes da ida ao trabalho nos sábados. Inicialmente, ocorria das 5h às 7h. “Chegamos a jogar num breu tão grande que mal dava pra ver a bola. Os vizinhos passaram a reclamar dos gritos, então a gente atrasou em uma hora”, recorda o comerciante Fernando Beviláqua, 56.

Um dos fundadores, ele se afastou da organização depois que uma dividida resultou em lesão no joelho. “Teve uma época em que eu jogava todo dia. Agora, tô 20 quilos acima do peso”, lamenta. O comando foi assumido pelo amigo Ivan, que conheceu o racha em 1996 e não largou mais. “Sou o mais presente. Nesse período, se eu tiver faltado 12 vezes foi muito”, arrisca.

Se eu fechar a porta, ele arromba. Se eu colocar cadeado, ele arromba também. Desisti de lutar contra
Erismar Ximenes, mulher de Ivan

Com o tempo, o Canta Galo virou sinônimo de organização entre peladeiros. Hoje, é o bate-bola com frequência semanal mais antigo de Fortaleza. Por isso, atrai inclusive jogadores em férias e ex-atletas quando sentem saudade dos gramados, como Ediglê e Jardel. “É difícil que exista um racha com mais nível que o nosso na cidade”, gaba-se Ivan.

Nesses 22 anos, o Canta Galo perambulou por campos do Parque Araxá e do Rodolfo Teófilo; pelo estádio do Uniclinic, na Lagoa Redonda; e atualmente bate ponto no estádio Moraisão, em Maranguape, a 25 km de Fortaleza. E, uma vez por ano, o Presidente Vargas recebe um torneio de aniversário, com direito a fogos de artifício e café da manhã recheado.

“Nesse dia a gente inicia mais tarde, às 7h, para que as esposas e namoradas possam vir e comprovem que a gente está indo para onde diz que vai”, sinaliza o empresário Ednaldo Gonçalves, 40, também da organização. Vale a pena mesmo, pois o horário desperta desconfianças, e volta e meia uma mulher decide conferir se o tal racha é real.

“Na primeira vez, achei muito estranho ele acordar às 4h para jogar bola”, admite Simone de Lima, 32, esposa de Gleidiano, 35, primeiro a chegar no dia de nossa visita. Assim vem sendo o início de fim de semana do casal há um ano e meio – pouco tempo, se comparado aos veteranos do racha. No futuro, quem sabe ela se acostume como Erismar Ximenes, esposa de Ivan.

Após mais de mil sábados, a dona-de-casa já se incomoda menos com a luz na cara de madrugada e os passos pela casa. “Se eu fechar a porta, ele arromba. Se eu colocar cadeado, ele arromba também. Desisti de lutar contra”, constata Erismar, agora responsável pelo café da manhã na festa do Canta Galo. Como reza o ditado, se não pode contra, juste-se a eles.

BASTIDORES

O Canta Galo foi criado pelo comerciante Fernando Beviláqua, o médico Cláudio Taumaturgo e o radialista Ely Aguiar, hoje deputado estadual. O ex-jogador Alves era presença cativa nos primeiros anos. O nome do racha, claro, foi uma referência ao horário.

A média de idade dos jogadores é de 40 anos, mas há jovens de vinte e poucos, alguns deles filhos dos veteranos do racha. Ivan Sampaio, com 59 anos, é o mais velho da turma. E, mesmo com as dores de cabeça da organização, ele tem fôlego para metade do jogo.

A taxa de participação no racha, revertida para pagamento dos árbitros, aluguel do campo, lavagem dos uniformes e compra de materiais como bolas, é atualmente de R$ 15. Ficou curioso? Chega lá no Moraisão. Mas, só lembrando, chegue cedo.

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