Fortaleza tem 56 ligas de bairros, 2 mil times amadores, 50 mil jogadores e 200 campos. Esse mundo à parte será tema de série de reportagens do Verminosos por Futebol.

CEGUIM – O TÉCNICO QUE TUDO VÊ

Flávio Aurélio Silva, o Ceguim, é o único técnico deficiente visual no futebol de subúrbio de Fortaleza.

02/06/2015 por Rafael Luis Azevedo
Digo com orgulho que fui fundador, jogador e hoje, mesmo cego, sou treinador do meu time de coração
Flávio Aurélio Silva, Técnico do Juventude

Flávio teve um baque que mudou sua vida aos 20 anos. Membro fundador do Juventude Esporte Clube, time amador do bairro Bom Jardim, de Fortaleza, o volante perdeu a visão no olho direito após sofrer falta violenta num jogo em 1989, em Caucaia, na Região Metropolitana. Um ano depois da pancada no rosto, a cegueira afetou o outro olho. Seu mundo caiu, mas o futebol tratou de reerguê-lo.

Apaixonado pelo time, Flávio Aurélio Silva não se desligou do Juventude. Ele passou a ajudar a diretoria, como um espécie de faz-tudo. Marcava jogos, preparava os uniformes, motivava o elenco. Até que, em 2005, o treinador da equipe aposentou o boné. Quem seria o mais capaz de assumir o comando? O querido Ceguim, que assim iniciou sua curiosa história, talvez sem igual no Brasil.

O cearense é o único técnico deficiente visual no futebol de subúrbio de Fortaleza. Comanda a equipe mais tradicional do bairro, com 30 anos de atuação. Nos 20 anos da liga da Granja Lisboa, que reúne participantes do Grande Bom Jardim, é o maior campeão, com cinco títulos. “Digo com orgulho que fui fundador, jogador e hoje, mesmo cego, sou treinador do meu time de coração”, gaba-se Flávio, de 46 anos.

Sem a visão, o técnico se baseia na audição para orientar a equipe. Ele se posiciona na lateral de campo, do lado da defesa. Ouve o movimento da bola e dos jogadores, para tomar suas decisões. “Primeiro reforço a marcação, para depois me preocupar com o ataque”, explica o treinador, que não se envergonha em ouvir dicas de jogadores e torcedores. “Não tenho assistente, mas todos me ajudam”.

Ele enxerga melhor do que muito treinador que consegue ver.
Deone Lopes, Jogador do Juventude

Essa perseverança empurra os jogadores. Mais do que treinador, Flávio serve de inspiração. “Todo mundo trabalha muito durante a semana. A gente vem aos jogos por causa dele”, registra o meia André Barbosa “Piaba”, servente de 35 anos. O centroavante do time, recém-chegado, até se emociona ao falar do comandante. “Ele enxerga melhor do que muito treinador que consegue ver”, elogia o eletricista Deone Lopes, de 33 anos, com os olhos marejados.

Quando algum dos jogadores sente a preguiça de deixar o descanso a troco de nada, basta lembrar a romaria de Ceguim até o Bom Jardim. Ele nasceu no bairro, mas hoje mora no Conjunto Curió, distante 20 km. Para chegar ao campo, pega três ônibus e passa por dois terminais, em 1h30min de viagem. Detalhe, sozinho. “Sou fã do Flávio”, exalta o almoxarife Francisco Moreira, de 50 anos, torcedor do time.

Referência na rua Luminosa, sede do Juventude, a fama do técnico cego se espalhou pelo Grande Bom Jardim. “A história do Juventude se confunde com a história da liga da Granja Lisboa. E, em toda essa trajetória, Flávio sempre esteve presente, com seu jeito de ser cativante”, resgata José Lisboa, presidente da entidade. “É engraçado quando ele reclama dos lances mesmo sem estar vendo nada”.

Após duas décadas e meia de deficiência, o treinador até parece enxergar. Mesmo aposentado por invalidez, faz bico como vendedor de cintos de couro. Quinzena sim, quinzena não, pede licença ao Juventude para viajar o Brasil com seus produtos na mochila, em ônibus interestaduais. Em Belo Horizonte, casualmente ele conheceu sua esposa, com quem tem duas filhas. “Foi um choque de bengalas. Ela também é cega”, conta.

Flávio é um ídolo sobretudo para a esposa, a quem ensina diariamente que não há barreira intransponível. “Ele tem uma percepção espacial fantástica. Para deficientes, um técnico cego é uma lição”, impressiona-se Geovania Carreiro, de 40 anos. Natural quando se faz algo com paixão. “Faço tudo pelo Juventude. Daqui só saio morto”, avisa. A comunidade da Luminosa, orgulhosa do pentacampeão do Grande Bom Jardim, agradece tanta devoção.

BASTIDORES

Flávio Aurélio tem percepção sensorial aguçada. A distância entre a rua da sede do Juventude e o campo é de 30 quadras. Como não houve transporte dos jogadores, a equipe de reportagem deu carona para o treinador. Faltando pouco para chegar ao destino, Ceguim avisou: “Daqui a dois quarteirões, dobra à direita”. Na esquina estava lá o campo do jogo.

O Juventude do Bom Jardim veste uniforme com escudo do Esporte Clube Juventude, time de Caxias do Sul-RS. Até mesmo o ano de fundação do clube gaúcho (1913) foi mantido, apesar de o Juventude fortalezense ter sido fundado sete décadas depois, em 1985.

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