Fortaleza tem 56 ligas de bairros, 2 mil times amadores, 50 mil jogadores e 200 campos. Esse mundo à parte será tema de série de reportagens do Verminosos por Futebol.

TRAVINHA É COISA SÉRIA EM PRAIA DE FORTALEZA

Todo fim de semana a praia da Leste-Oeste é palco da liga de futebol de travinha mais organizada da cidade.

12/12/2016 por Rafael Luis Azevedo
Com a proibição dos bailes funk, grupos do Pirambu e do Oitão Preto passaram a brigar na praia. Então a gente teve a ideia de fazer o futebol unir o pessoal.
Juraci Mendes, fundador da liga de travinha da Leste-Oeste e integrante do time Dragões

Seis e pouco da manhã de domingo, traves de futebol começam a ser posicionadas na praia da Leste-Oeste. Em poucos minutos, sete campos são formados um atrás do outro, ocupando os 500 metros da faixa de areia entre os dois espigões. Às nove, quando a maré recua ao ponto mais baixo, 14 times entram em ação. Surge um colorido inusitado na praia que se orgulha de ser palco do jogo de travinha mais popular de Fortaleza.

Bem, travinha é o termo local que define o futebol disputado sem goleiros, com traves reduzidas. Na praia da Leste-Oeste, situada no bairro Pirambu, um dos mais estigmatizados pela violência em Fortaleza, esse bate-bola já é uma tradição há duas décadas. Por ironia, ele foi abraçado como bandeira de paz pelos próprios moradores para se aliar aos visitantes do Oitão Preto, favela do vizinho Moura Brasil.

“Com a proibição dos bailes funk, grupos das duas comunidades passaram a brigar na praia. Então a gente teve a ideia de fazer o futebol unir o pessoal”, resgata Juraci Mendes, hoje com 40 anos. O cearense foi um dos fundadores da liga de travinha da Leste-Oeste, em 1996. Nunca o grupo ganhou papel passado, mas nem foi preciso para a organização dar um banho em muita federação profissional.

Todos os anos, a turma promove um torneio-início, depois um campeonato no formato de Copa do Mundo e por fim uma competição mata-mata, com 16 a 24 equipes participantes. Os jogos correm de acordo com tábua das marés, numa semana no domingo e na outra no sábado, durante um intervalo de quatro horas em que as águas deixam. No horário oposto, as ondas cobrem todo o espaço de jogo, interrompendo o futebol.

“Nos jogos de campeonato a gente marca o campo com cordas, fazendo até quatro partidas seguidas. Mas sempre ocorrem amistosos ao lado, usando todo o espaço de um espigão ao outro”, pontua Juraci, técnico de refrigeração. Os times chegam cedo para escolherem a área em frente a suas barracas de praia preferidas, mas sendo preciso os campos são estreitados na lateral. “Cabem até 14 jogos simultaneamente”, indica.

Tem muito jogueiro bom aqui. Vários deles defendem também times de futebol de subúrbio, de 11 jogadores.
Leandro Plácido, atual organizador da liga de travinha da Leste-Oeste e dono do time All-Star

A Leste-Oeste é uma pequena praia localizada entre a estação de esgoto de Fortaleza, onde há o emissário de dejetos tratados para o oceano, e o espigão da entrada do Pirambu, estrutura de pedra perpendicular à costa construída para conter a perda de faixa de areia. No passado, a área era famosa na cidade pelo mau cheiro. Hoje a situação já é melhor, e em boa parte do ano as águas são próprias para banho.

Nas areias, pode-se dizer que o futebol jogado na Leste-Oeste é um esporte único – afinal, é praticado só lá. Pelo menos em suas regras. O campo, por exemplo, é medido em 100 passos por 46. A trave possui 1m25 por 1m25. O jogo tem dois tempos de 20 minutos (ou 45, em caso de amistosos). E são seis jogadores na linha e mais o traveiro, uma espécie de goleiro que não pode defender com as mãos, nem se agachar.

Vários jogadores dos times de travinha defendem também equipes amadoras de Fortaleza. “Tem muito jogueiro bom aqui. Se o cara acerta um chute de longe numa trave pequena, não terá dificuldade com trave grande”, compara Leandro Plácido, de 29 anos, atual organizador da competição. Auxiliar de serviços gerais, ele admirava os jogadores na infância. Hoje, é dono da equipe mais vitoriosa, o All-Star, tricampeão da liga e também tri da copa.

Por sinal, esqueça a brincadeira de camisa versus sem camisa. Na praia, todos têm seus próprios uniformes. E os escudos de mais tradição são os do Dragões, time de Juraci, e do arquirrival Dínamo, formado por policiais e bombeiros – ambos com 20 anos nas areias. “Todo fim de semana, a gente recebe umas 30 equipes e uns 200 jogadores. Não existe futebol de travinha tão forte em Fortaleza”, prega Juraci.

Enquanto uns jogam, os filhos já trilham os passos. “Quero virar jogador do Dínamo ou do Mônaco”, adianta Lucas Fernandes, de 9 anos. O pai Ronaldo observava a conversa, enquanto recuperava o fôlego para se juntar aos amigos do Atalanta. Times não faltam na Leste-Oeste. Futuras gerações também.

BASTIDORES

A praia da Leste-Oeste fica a 1,5 km ao oeste do Marina Park Hotel. Apesar do vizinho famoso, a região não é turística, e suas barracas de praia não oferecem boa estrutura. Os frequentadores em geral são os moradores do Pirambu, além de bairros próximos como Moura Brasil e Jacarecanga.

O nome da praia se deve ao apelido dado à avenida Presidente Humberto de Alencar Castello Branco, inaugurada em 1973 para ligar as praias do Mucuripe e da Barra do Ceará, do leste ao oeste de Fortaleza. Assim surgiu a avenida Leste-Oeste, e por tabela também a praia.

Entre os fortalezenses, o senso comum é de que a praia da Leste-Oeste é área com risco de assaltos e com água poluída. Na visita para esta reportagem, o Verminosos por Futebol não percebeu a insegurança. Além disso, a praia estava balneável, segundo o boletim semanal. Pena que estávamos trabalhando.

O futebol de travinha é conhecido de outras formas no Brasil. Segundo leitores, como golzinho (RJ, SP, MG, ES, GO, DF, RS, BA e PI), gol caixote (SP), gol caixão (SP), golzinho de praia (MG), chinelim (MG), barrinha (PE), mirim (RN), goleirinha (RS), cacetinho (RS), travinha fechada (SC), furingo (ES) e arinha (estados do Norte). Travinha é opção em CE, PI, PB, BA, AL, PA, TO e ES.

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