Fortaleza tem 56 ligas de bairros, 2 mil times amadores, 50 mil jogadores e 200 campos. Esse mundo à parte será tema de série de reportagens do Verminosos por Futebol.

ROBERTO – O HOMEM DOS MIL GOLS

Roberto Alencar Lima, peladeiro de Fortaleza, é um sujeito humilde com um orgulho na vida: desde 1987, soma incríveis 1.283 gols. Mais do que Pelé!

03/08/2015 por Rafael Luis Azevedo
Sou muito verminoso. Se tivesse dinheiro no banco, jogaria bola todo dia.
Roberto Alencar Lima, Repositor de frios

Ele é baixinho, marrento, tem faro de artilheiro e marcou mais de mil gols. Pode ser a definição de Romário, craque dos gramados e agora da política. Mas também de um peladeiro que bate ponto na Praia dos Diários, em Fortaleza. Conhecido por muitos pelo apelido, Roberto Alencar Lima carrega um orgulho para poucos: já marcou 1.283 gols. Um a mais do que Pelé!

A mania de anotar seus gols num caderninho começou em 1987, aos 14 anos, quando passou a frequentar a praia. Roberto casou, teve cinco filhos e, hoje com 42 anos, segue figurinha carimbada no racha. No sábado e no domingo, é ele quem leva a bola e as traves. “Só não jogo todo dia porque tenho de dar de comer aos meus filhos”, conta o repositor de frios de supermercado.

Poucos são tão verminosos por bola quanto Roberto. Sua família já se acostumou aos exageros, e até ri deles. “Quando nosso primeiro filho nasceu, foi só a gente chegar em casa que ele se tacou para o futebol”, descreve a dona-de-casa Marinêz Bezerra da Silva, de 41 anos. Com o tempo, a esposa aprendeu a não marcar compromissos para as manhãs de fim de semana.

Claro, é hora de Roberto subir na bicicleta e pedalar quatro quilômetros de sua casa, no bairro Piedade, até a avenida Beira-Mar. “Serve como meu aquecimento”, relata. Nas areias, o sujeito humilde que mora numa quitinete que acomoda sete pessoas assume outra personalidade. Vira, no convívio dos amigos, o cara dos mil gols. “No meu nível só tem Romário”, chuta a modéstia para escanteio.

Quando nosso primeiro filho nasceu, foi só a gente chegar em casa que Roberto se tacou para o futebol.
Marinêz Bezerra da Silva, Dona-de-Casa

O apelido com o qual se tornou conhecido na Praia dos Diários se deve à mania de plantar-se próximo às traves. Culpa da barriguinha saliente, que afetou o fôlego. “Quando jovem, eu era magrinho e corria muito. Então engordei e comecei a ficar paradão. Aí o pessoal frescava: ‘Macho, tu quer ser o Romário, é?’”, explica Roberto, com 96 kg mal distribuídos em 1,69 m.

Para reforçar a alcunha artilheira, a camisa é sempre a mesma. Uma réplica da época em que o Romário original marcou seu milésimo gol, em 2007. Surrada de tanta maresia ao longo dos anos, a blusa do Vasco ficou desbotada e cheia de buracos. “Se soltar essa camisa, ela vai sozinha para a praia”, diverte-se Roberto, torcedor também do Fortaleza e do São Paulo.

Seu único lamento foi não ter tido oportunidade para mostrar o talento num clube profissional. O cearense perdeu a mãe com um ano, e o pai aos 14. Criado pela avó, precisou trabalhar desde cedo. O conforto veio na praia, onde virou o rei da travinha, como é chamado no Ceará o futebol de traves reduzidas. “Romário é bom de bola, viu?”, assegura o vendedor Paulo Oliveira.

A maioria glória da “carreira” aconteceu no dia 16 de março de 2008. Como indica o caderninho guardado num armário fechado a cadeado, o gol de nº 1.000 foi assinalado às 11h37min de um domingo ensolarado. “O pessoal me carregou nos braços, e a gente deu a volta olímpica”, revive. O feito não ganhou manchetes. Mas foi, para Roberto, o momento mais feliz da vida.

BASTIDORES

O único filho homem de Roberto, e o mais velho dos cinco, já está na faculdade. Hércules Bezerra Lima, de 18 anos, cursa Letras na Universidade Federal do Ceará (UFC). “Será um futuro professor de inglês”, baba a cria. É a esperança de ajudar os pais a melhorar de vida e se mudar para uma casa mais espaçosa.

Uma das filhas de Roberto, Thalia Bezerra Lima, de 13 anos, segue os passos do pai. Ela joga futebol no colégio, e às vezes o acompanha na ida ao racha da praia. Mas não anota seus gols. Apesar de se orgulhar do feito do pai, a menina reprova a contagem no caderninho. “Acho isso ridículo”, confidencia.

Se gostou, ajude a divulgar nosso trabalho. Compartilhe!