Fortaleza tem 56 ligas de bairros, 2 mil times amadores, 50 mil jogadores e 200 campos. Esse mundo à parte será tema de série de reportagens do Verminosos por Futebol.

MEIA-NOITE – O RACHA DOS GARÇONS

O bate-bola mais alternativo de Fortaleza ocorre nas madrugadas de domingo para segunda. Reúne garçons após o expediente em restaurantes.

01/10/2015 por Rafael Luis Azevedo
Domingo é nosso dia preferido. Claro, é o dia do racha.
Francisco Nogueira, Garçom

Meia-noite. Fim da linha para Francisco Nogueira, após quase nove horas no batente. Da pizzaria onde trabalha, em Fortaleza, até sua casa, em Horizonte, são 42 quilômetros. Percurso que ele voa na motoca. Quase sempre, a vontade é de cair na cama. Na madrugada de domingo para segunda-feira, não – é hora de jogar bola! Toda semana, ele bate ponto no Racha dos Garçons.

O bate-bola mais alternativo da cidade larga à 0h, e vai até as 3h30min, dependendo do fôlego da turma. Formam-se de quatro a cinco times de garçons, além de cozinheiros, pizzaiolos e caixas, de restaurantes, lanchonetes e bares. O palco é a praça em frente à Igreja de Fátima, que na reforma entregue este ano viu sua pista de skate dar lugar a uma quadra de futsal.

“A gente começou a jogar na Parquelândia há dois anos, e há quatro meses nos mudamos para o Bairro de Fátima”, demarca Francisco, de 31 anos, garçom há 10. Agora numa região central da capital, ficou mais fácil juntar os colegas. “Muitos moram distante, como é o meu caso, ou então trabalham longe da praça, mas aproveitam essa oportunidade para tirar o estresse”.

Acho bonito o amor por futebol que leva alguém a jogar de madrugada.
Elizangela Damasceno, Gerente de pizzaria e chefe de alguns dos peladeiros

O racha reúne um clube do bolinha, mas também há mulheres por perto. Leda Carvalho, por exemplo, é presença cativa. Namorada do pizzaiolo José Raimundo da Silva, ela não gostou nada quando, certa vez, o viu chegando em casa às 4h. “Fiquei desconfiada”, admite a cozinheira, de 27 anos. Desde então, passou a acompanhá-lo. “A marcação é colada”, provoca um colega.

Numa dessas idas em casa para buscar a companheira, José esqueceu que seria ele o responsável por levar a bola. E lá ficaram os demais esperando pelo início do jogo. “Quando veio aparecer, já era 1h. A gente tava puto da vida”, relembra o garçom Joni Alves da Silva, de 28 anos. “Fazer o quê? Não posso mais deixar a mulher em casa”, justifica.

A disposição de suar num horário tão incomum impressiona os chefes. “Acho bonito o amor por futebol que leva alguém a jogar de madrugada”, elogia Elizangela Damasceno, gerente de pizzaria. Passado o racha, a mente relaxa, mas o corpo não desliga de imediato. “Só consigo dormir lá pra 5h”, relata Francisco. Enquanto o dia começa pra uns, pra eles termina.

BASTIDORES

Na última reforma da praça da Igreja de Fátima, a pista de skate foi substituída por uma quadra poliesportiva, com um lance de arquibancada e dois refletores. A prática de basquete, porém, ficou inviável depois que vândalos surrupiaram os cestos.

Essa é uma das duas únicas quadras públicas do Bairro de Fátima, que possui 23 mil habitantes, incluindo a da praça Argentina Castelo Branco. Parte dos skatistas, órfãos após a reforma, mudou-se para uma pista de skate em praça da vizinha Gentilândia.

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