Fortaleza tem 56 ligas de bairros, 2 mil times amadores, 50 mil jogadores e 200 campos. Esse mundo à parte será tema de série de reportagens do Verminosos por Futebol.

SACI FC – O TIME DE AMPUTADOS

Único time de amputados do Ceará, a Adesul reúne 25 jogadores de oito cidades da Região Metropolitana de Fortaleza. A maioria vítimas de acidentes de moto.

24/06/2016 por Rafael Luis Azevedo
Eles chegam com a autoestima muito em baixa, mas em pouco tempo, com a prática do esporte, passam a apresentar uma condição de vida melhor do que quando tinham as duas pernas ou os dois braços.
Felipe Catunda, presidente da Adesul

Vilmar Lima lembra como se fosse hoje do dia 13 de janeiro de 2012. Ele ia para o trabalho, de moto, quando um caminhão avançou a preferencial. O motorista e vigilante teve o pé direito partido ao meio. O acidente, por ironia, lhe deu vida. O cearense descobriu o esporte, virando multiatleta de diversas modalidades. E hoje é um líder da Adesul, o único de time de futebol de amputados do Ceará.

O jogador é um dos 25 que fazem parte da Associação D’Eficiência Superando Limites (Adesul). A entidade, fundada em Maracanaú em 2015, pelo educador físico Felipe Catunda, oferece reabilitação a deficientes por meio do esporte. Seu time de futebol, o mais conhecido, reúne amputados de uma perna ou um braço de oito cidades da Região Metropolitana de Fortaleza.

“Cerca de 90% deles foram vítimas de acidentes de moto. Eles chegam com a autoestima muito em baixa, mas em pouco tempo, com a prática do esporte, passam a apresentar uma condição de vida melhor do que quando tinham as duas pernas ou os dois braços”, constata Felipe, treinador do time de futebol de amputados da Adesul, surgido neste ano.

A maioria dos atletas não batia bola fazia anos. Mas também há aqueles que praticavam frequentemente, e que inicialmente sofreram ao deixar o futebol. “Fui das categorias de base do Ceará e do Maranguape, e por causa dos estudos passei a jogar só no subúrbio. Quando descobri o futebol de amputados, passei a vir sempre”, conta o servidor público Anderson Braga.

Eu sou destro, então sofri muito por não ter mais a perna direita. A bola vinha e eu chutava com a perna amputada. Ficava no vácuo, pra risada do pessoal.
Vilmar Lima, jogador da Adesul

O futebol de amputados possui regras parecidas com as do futsal, sendo praticado em campo soçaite. Os seis jogadores de linha não podem tocar na bola com as muletas, e também não devem bloquear o lance quando caem no chão. Já o goleiro tem as duas pernas, porém somente uma mão. “É um esporte que exige muito do físico dos jogadores”, indica Felipe.

A Adesul incorporou o elenco do Águias de Cristo, time de amputados de Fortaleza que surgiu há três anos. Como não há no Ceará outra equipe com essa condição, eles jogam entre si ou fazem exibições contra times infantis. Em abril deste ano, a Adesul participou da Copa do Brasil de futebol de amputados, em Mogi Mirim (SP), que contou com sete equipes. O contato com elas foi um choque.

“A gente nunca tinha feito um jogo oficial. Os jogadores chegaram lá com um futebol amistoso, então descobriram que os amputados davam carrinho, empurravam com o corpo e faziam até gol de bicicleta”, surpreende-se Felipe. Não à toa, o primeiro jogo foi uma surra de 14 a 0. Refeita do susto, a Adesul evoluiu ao longo do torneio, saindo com uma vitória e a 6ª colocação.

Resultado à parte, são todos vencedores. Especialmente os jogadores que perderam a perna que mais usavam nos movimentos. “Eu sou destro, então sofri muito por não ter mais a perna direita”, relata Vilmar, vítima da “síndrome da perna fantasma”. “No começo, a bola vinha e eu chutava com a perna amputada. Ficava no vácuo, pra risada do pessoal”, diverte-se.

Na medida do possível, os jogadores se organizam para compartilhar os pares de chuteiras. Basta que calcem o mesmo tamanho e tenham restado pés distintos. Caso de Ednaldo Gomes, destro, e Heron Rodrigues, canhoto. “O tamanho 39 serviu para os dois, então a gente dividiu o valor”, relata Ednaldo. Pelo menos uma vantagem.

BASTIDORES

A Associação D’Eficiência Superando Limites (Adesul) reúne cerca de 80 deficientes – físicos, visuais ou mentais. Em busca de reabilitação, eles praticam esportes como futebol, atletismo, natação, tênis de mesa, bocha e fisiculturismo.

Felipe Catunda teve a ideia de fundar a entidade durante o curso de Educação Física feito na Universidade Estadual do Ceará (Uece), em Fortaleza, quando descobriu o efeito benéfico da prática de esportes na recuperação de deficientes.

O Corinthians possui o melhor time de futebol de amputados do país, tendo sido campeão da última edição da Copa do Brasil, em Mogi Mirim. Rogerinho, do Timão, é o melhor jogador do mundo. Uma inspiração para a turma da Adesul.

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