Papo sério

Uniforme do Tibet foi criação de brasileiro

O Tibet tem a camisa de seleção alternativa mais celebrada da internet. Mesmo sem ser reconhecida pela Fifa, a equipe ganhou repercussão mundial há dois anos, quando teve uniforme lançado […]
Postado por Rafael Luis Azevedo - 05/nov/2013
Bordallo-Tibet-chamada

Uniforme do Tibet, mundialmente conhecido, foi criado por Antônio Bordallo (Fotos: Divulgação)

O Tibet tem a camisa de seleção alternativa mais celebrada da internet. Mesmo sem ser reconhecida pela Fifa, a equipe ganhou repercussão mundial há dois anos, quando teve uniforme lançado pela Copa Football, da Holanda. Pois essa belezura aí foi criação de um brasileiro.

Mais precisamente de um carioca, Antônio Bordallo. Designer de moda esportiva, ele foi contratado pela empresa especializada em estampas de futebol para desenhar o uniforme lançado numa campanha pela oficialização da seleção tibetana. Tal qual a cultura oriental, foi um exercício de paciência.

Bordallo-Tibet-Dalai-Lama

Até o Dalai Lama, líder político e religioso do Tibet, participou da divulgação do uniforme da seleção tibetana. Um orgulho para Antônio Bordallo

“Cada detalhe foi elaborado ponto a ponto, inclusive a fonte exclusiva para a numeração e o relevo dos leões. Foram 10 ou 11 meses de trabalho, com uma troca de mensagens com o diretor da marca que ultrapassou os 300 e-mails enviados”, relembra Bordallo.

Foi um prêmio para uma paixão iniciada na infância. Se hoje em dia existem diversos fóruns digitais de design de camisas, Bordallo começou com desenhos no caderninho. Foi em 1993, aos 13 anos. “Acho engraçado comparar o trabalho que eu tinha com a praticidade de hoje. Você dá um clique e colore tudo”, compara o designer, de 33 anos.

Bordallo já teve um blog onde publicava seus esboços, “A Prancheta do Antônio“. Ele o deixou de lado quando viu desenhos de colegas copiados por marcas esportivas. “No design de moda, não existe plágio, tudo é tendência”, ironiza. “Se um dos designers das empresas está em crise criativa, procura alguns mockups na internet e pronto”.

Acho engraçado comparar o trabalho que eu tinha, quando a mão cansava com uso de lápis de cor, com a praticidade de hoje. Você dá um clique e colore tudo”.

O artista gráfico resolveu investir no passatempo após um drama pessoal. Em 2005, ele foi atropelado por um ônibus e passou a se deslocar em cadeira de rodas. “A partir dali eu prometi me dedicar profissionalmente apenas àquilo que me dava prazer de fazer”, relata o carioca. Nascia o desejo de cursar Moda, na Universidade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro.

Bordallo-Polonia

Antônio Bordallo venceu concurso com mais de 100 concorrentes, em 2008, com a camisa da Polônia mais bonita

O hobby ficou sério quando Bordallo venceu um concurso com cerca de 100 concorrentes, em 2008. O desafio era desenhar um uniforme para a Polônia. Alguns meses depois, a Nike lançou novas camisas da seleção, de qualidade inferior. Como consequência do prêmio, veio o contrato com a Copa Football.

Mesmo sem ter o nome divulgado pela empresa como criador da camisa do Tibet, surgiram outros trabalhos depois disso, como o CRB. “Depois de um tempo eu até contactei outras marcas esportivas no Brasil, mas ninguém se interessou, mesmo com esse portfólio de realizações, infelizmente”, lamenta.

As companhias de design esportivo têm uma postura inatingível, como se fossem um Olimpo em que é impossível saber que pessoas são envolvidas no desenvolvimento do desenho”.

Hoje morador de Tallinn, na Estônia, Bordallo é um crítico da overdose de patrocínios em camisas, especialmente de times do Brasil. “Eu sei que isso paga os clubes, mas parece que eles se aproveitam que brasileiro é fanático, enchem de patrocínio, cobram R$ 200 a R$ 250 pela camisa e uma pá de gente compra contente”.

Ele também reclama da padronização de uniformes, que tomou conta dos lançamentos das grandes marcas. “A desculpa é que é pra cortar custos, mas se cortando custos a camisa ainda sai pelo preço mencionado acima, seria melhor assumir que é pra aumentar a margem de lucro com um investimento ainda menor”, comenta Bordallo, fã do design de Umbro e Hummel.

Bordallo

O uniforme do Tibet, desenhado por Antônio Bordallo, ganhou elogios em sites do mundo todo

Eu não sou completamente contra os patrocínios, sou a favor de uma liberdade de escolha na hora de comprar uma camisa. O mais recente exemplo é a camisa escura da Portuguesa, que tem um desenho maravilhoso, mas que no uniforme de jogo está escondido por baixo de vários patrocinadores. Ela quer contar a história dos guerreiros portugueses, mas eu só consigo ver anúncio de ferramenta e ar condicionado. Se o objetivo for estampar patrocínios somente, que cada time jogue com uma camisa limpa de uma só cor e cheia de patrocínios. Na Formula 1 funciona”.

Bordallo tem know-how pra opinar, afinal não é qualquer um que já criou um uniforme tão celebrado. “Deve ser uma honra ter um Messi vestindo camisa que você desenhou, mas são poucos os que viram sua criação nas mãos de uma pessoa tão importante e admirada como o Dalai Lama”, define Bordallo. Seria como criar a camisa da seleção do Vaticano e ter o próprio papa exibindo o manto sagrado.

Bordallo-Corinthians

Antônio Bordallo é torcedor do Timão

Dica do Bordallo para quem gosta do hobby:

“Faça uma faculdade, do contrário vão pensar que você está nessa só de onda, não siga tendências, pense fora da caixa (ou seja, pesquise sobre uniformes de outros esportes), estude sobre a história dos clubes e dos lugares de onde eles são. Hoje em dia parece estar na moda levar em conta tudo isso, mas eu já aplicava esses conceitos quando ninguém pensava em fazer isso, nem as marcas grandes.”

Blogs que já foram mantidos por Bordallo:
sport2wear.wordpress.com
minhaprancheta.wordpress.com

Material de divulgação da Copa Football sobre a seleção do Tibet:
www.copafootball.com/collections/tibet

Clique no link e leia também:

Tibet
www.verminososporfutebol.com.br/carrinho-de-compras/selecao-do-tibet-tem-camisa-de-primeira

Conheça o autor

O jornalista Rafael Luis Azevedo, de 33 anos, é editor do site Verminosos por Futebol desde 2012. Já venceu 21 prêmios de jornalismo, incluindo Esso, Embratel e Petrobras. É também coordenador do portal Tribuna do Ceará, e teve passagens por jornal O Povo, O Povo Online e TVs Jangadeiro/SBT, O Povo/Cultura e Cidade/Record. Já fez reportagens ou produção para as revistas Four Four Two (ING), So Foot (FRA), Courrier International (FRA) e Placar, os sites BBC Brasil, Vice e Agência Pública e as TVs France 2 (FRA) e Fusion (EUA). Cobriu duas Copas do Mundo in loco e foi co-autor de livros sobre o Ceará e o estádio Presidente Vargas.

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