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Viagem no tempo

Centenário Valdemar Caracas resgata vida

A semana que passou marcou o aniversário de 105 anos de Valdemar Caracas, fundador do Ferroviário Atlético Clube. Para reverenciar o dia 9 de novembro, o Verminosos por Futebol republica entrevista concedida pelo ex-dirigente ao autor deste blog, publicada originalmente no jornal O Povo, em 2007, na ocasião de seu centenário. O texto é longo, […]

A semana que passou marcou o aniversário de 105 anos de Valdemar Caracas, fundador do Ferroviário Atlético Clube. Para reverenciar o dia 9 de novembro, o Verminosos por Futebol republica entrevista concedida pelo ex-dirigente ao autor deste blog, publicada originalmente no jornal O Povo, em 2007, na ocasião de seu centenário. O texto é longo, mas a leitura vale a pena.

No ano de seu centenário, em 2007, Valdemar Caracas ganhou busto no clube (Foto: Ferroviário)

Valdemar Caracas, o Vovô Centenário

Rafael Luis Azevedo, 29/10/2007

Poucos homens são devidamente homenageados ainda em vida. Valdemar Caracas viveu tanto que conseguiu a proeza. Ao longo de quase 100 anos, ele recebeu diversas comendas. O birô de madeira da sala de casa está cheio delas. É até difícil numerá-las. Algumas estão na estante, outras em quadros. Verdadeira lenda do futebol cearense, o ex-dirigente, ex-técnico, ex-jogador e ex-cronista esportivo atinge um século de vida no dia 9 de novembro. Data para reverenciar aquele que acompanhou em Fortaleza o engatinhar do jogo trazido da Inglaterra e, hoje, ainda lúcido, mostra-se em condições de analisar a situação da modalidade no Ceará.

Apesar da idade, Valdemar Caracas impressiona por sua saúde em dia, embora esteja com a visão e audição debilitadas. Esperto, o fundador do Ferroviário e primeiro cronista esportivo da cidade não cai em perguntas capciosas. Na menor menção à atual diretoria do clube para o qual torce, ele interrompe com firmeza: “Essas perguntas aí você faz ao presidente do Ferroviário, uma pessoa que estimo muito”. Noutro momento, Caracas se irrita por não ter tido tempo para completar a resposta. Sinal de que é preciso cautela com o que se pergunta.

Conversa vai, conversa vem, as lembranças do dirigente são um passeio pela fase romântica do futebol cearense, na primeira metade do século passado, quando jogadores recebiam emprego no lugar de salários. Como técnico do Ferroviário, Valdemar Caracas conta que dava cachaça para Almeida, atleta que só se tranquilizava antes dos jogos se tomasse pelo menos uma dose. Excelente frasista, ele manda brasa nos técnicos retranqueiros da atualidade, dirigentes sem planejamento, torcedores sem educação e radialistas sem isenção.

Viver é uma dádiva, mas tardar a morrer pode ser uma tristeza. Caracas demonstra ter saudade dos vários amigos que já se foram e da esposa Anete, sua companhia durante sete décadas, que morreu no ano passado. “Acho até que eu já devia ter morrido, para não dar trabalho aos outros”, admite. Caracas não deveria dizer isso. Para os saudosistas, suas histórias são como uma viagem no tempo. E, para a torcida do Ferroviário, ele será sempre uma espécie de segundo pai.

Qual era o seu papel no grupo de pessoas que fundou o Ferroviário?
Valdemar Caracas – O Ferroviário foi fundado pelos operários da Rede de Viação Cearense (RVC), que tinha suas oficinas no Floresta (bairro vizinho à Barra do Ceará). Eu tinha 25 anos e era escriturário, quando veio uma ordem do Rio de Janeiro em 1933 para fazer um serviço extraordinário de reparação de carros e locomotivas para transportar a nossa safra para o Interior. Estabeleceu-se o serviço das 18 às 20 horas. O expediente normal terminava precisamente às 16h25min. Quem morava perto jantava em casa, mas havia os que moravam longe. Então os operários tiveram a ideia de fazer uma pelada todo dia, das 16h30min às 18 horas. Quando eles foram limpar o terreno ao lado da oficina, o mato era constituído de jurubeba e matapasto, que viraram os nomes dos dois times. Depois, os operários aproveitaram os domingos e começaram a jogar pelo subúrbio. Foi aí que nasceu a ideia de fundar o Ferroviário. Eu ajudei na documentação, mas no início não me envolvi. Só fiquei à frente do time a partir de 1938, quando me disseram que eu era líder da classe e que os operários estavam tomando o apito do juiz, arrumando confusão. Chamei todo mundo e disse que queria o Ferroviário com bom procedimento. A partir daquele dia tomei de conta de vez do time e dei vida ao Ferroviário.

Quando comecei a jogar futebol, só existiam quatro times em Fortaleza: Ceará, Stela, que depois se tornou o Fortaleza, Guarani e Bangu. Quem tinha mais torcida era o Ceará, que sempre foi de massa. Já a torcida do Fortaleza cabia num automóvel”.

Foi o senhor quem mudou o nome de Ferroviário “Football Club” para “Atlético Clube”?
Caracas – Eu fiz isso porque tinha um time no Maranhão com as iniciais FAC: Fabril Atlético Clube. São essas besteiras da gente, sabe? Eu torço um time em cada estado. Eu sou Internacional no Rio Grande do Sul, sou Fluminense no Rio de Janeiro, sou São Paulo. Por falar nisso, muita gente nota a semelhança no uniforme do São Paulo com o do Ferroviário. Fui eu quem mudei o uniforme do Ferroviário para ficar igual ao deles. Na verdade, eu torcia pelo Paulistano, um clube que acabou na década de 1930, por isso passei a torcer São Paulo, que veio depois. Eu mandei trazer para Fortaleza dois ternos (uniformes) do São Paulo, com 22 camisas. Quem me ajudou nisso foi o Vicente Sales Linhares, um amigo meu que já morreu.

O senhor tinha 25 anos quando surgiu o Ferroviário, mas já devia torcer por outros times. Para qual time o senhor torcia antes?
Caracas – Eu digo. Eu comecei a jogar futebol com bola de meia na praça Marquês do Herval, a atual José de Alencar, no Centro. Quando comecei a gostar de futebol, só existiam quatro times em Fortaleza: Ceará, Stela, que era o time que depois se tornou o Fortaleza, Guarani e Bangu. Quem tinha mais torcida era o Ceará, time que sempre foi de massa. Já a torcida do Fortaleza cabia num automóvel, ela só cresceu muito tempo depois. O Guarani tinha uma boa torcida, a do Bangu era um pouco menor. Eram esses os times que disputavam o campeonato da Liga Metropolitana de Football, que antecedeu a federação cearense.

Mas o senhor ainda não me disse para qual time torcia antes do Ferroviário…
Caracas – Peraí, você não me deixou responder ainda. Eu adorava fundar time. O primeiro que eu fundei foi o Humaytá, time dos empregados das Lojas Samaritanas, em companhia do Paulo Sarasate, que comandou o jornal O Povo, e Vinícius Ribeiro, os dois acadêmicos de Direito. Eu ainda não era empregado da RVC, trabalhava na loja. Eu e mais quatro empregados fundamos o Humaytá, que depois chegou à 1ª Divisão (do Campeonato Cearense). Depois, eu fui morar no Alagadiço (atual bairro São Gerardo) e fiz parte do bloco fundador do Maguary. Quando passei a trabalhar na estrada de ferro e surgiu o Ferroviário, virei Ferrim.

Os jogadores ganham muito dinheiro porque alguém dá, as diretorias dos clubes acham que são ricas. O futebol cearense de hoje acha que é milionário. Na minha época eu não dava dinheiro, dava emprego. O sujeito tinha que trabalhar e jogar pelo time”.

O curioso então é que o senhor, como técnico do Ferroviário na final do Campeonato Cearense de 1945, acabou sendo responsável pelo fim do Maguary, o time para o qual torcia antes.
Caracas – (gargalhadas) Eu era o treinador e impedi que o Maguary conquistasse o tricampeonato estadual. A derrota foi tão feia que o Maguary decidiu ficar só com a dança, deixou de lado o futebol. O Ferroviário não era um clube social, só tinha o futebol.

O senhor sentiu remorso por ajudar a acabar com o time para o qual torcia?
Caracas – Só tenho que prestar contas com Deus, não tem isso de remorso. Além do mais, a diretoria do Maguary tinha me botado para fora. Houve uma sessão e eu acusei um diretor de acompanhar a opinião de outro, disse que era “carneirada”. Carneirada, na época, era aquela pessoa que segue as outras, que não tem raciocínio próprio. Teve um diretor que disse: “Carneiro tem chifre, chifre é de corno, então você está me xingando”. Aí me botaram para fora. Fui para o Conselho Superior do clube, com direito a assembléia geral e tudo, e ganhei o direito de voltar. Mas não tinha mais ambiente, então renunciei. Até hoje tenho uma carteirinha do Maguary, mas não sei onde ela está. O Maguary foi fundado no dia 24 de junho de 1924. Era o clube dos ricos de Fortaleza, da elite da cidade. A sede social era um rio de mulher bonita.

O Ferroviário foi o primeiro clube semiprofissional do futebol cearense, os jogadores passaram a ter um vínculo contratual na época em que o senhor assumiu a diretoria. O que o senhor acha desses novos tempos em que os jogadores recebem fortunas, como o Finazzi, que ganhava R$ 60 mil no Fortaleza em 2006?
Caracas – Os jogadores ganham muito dinheiro porque alguém dá, as diretorias dos clubes acham que são ricas. O futebol cearense de hoje acha que é milionário. Na minha época eu não dava dinheiro, dava emprego. O sujeito tinha que trabalhar e jogar pelo time.

Fui diretor de tesouraria da Federação, me metia no meio dos torcedores para ver como as torcidas estavam se comportando. Quem mandava no estádio era eu, fiscalizava tudo. Hoje, ninguém é responsável pelo que acontece no estádio”.

E alguém reclamava?
Caracas – Reclamava? Tá louco, rapaz? Emprego era tudo. José Dias, goleiro, e Pipi, ponta-esquerda, não sabiam coisa nenhuma, mas ganharam emprego na Rede de Viação Cearense e depois ficaram com uma ótima aposentadoria. Tem uma porção de gente que ainda hoje está aposentada. Eles iam para lá para trabalhar, mas todo domingo era meu: tinha que jogar futebol. A RVC era muito boa, depois vieram a Reffsa (Rede Ferroviária Federal S.A.) e o Metrofor (Companhia Cearense de Transportes Metropolitanos), essas porcarias.

No passado, as torcidas adversárias assistiam aos jogos juntas, no Campo do Prado e depois no Presidente Vargas. Por que começaram essas brigas que a gente vê hoje nos clássicos no futebol cearense, principalmente entre torcedores de Ceará e Fortaleza?
Caracas – Fui diretor de tesouraria da federação, na primeira metade do século passado, me metia no meio dos torcedores para ver como as torcidas estavam se comportando. Quem mandava no estádio era eu, fiscalizava tudo. Hoje, ninguém é responsável pelo que acontece no estádio. Falta educação aos torcedores, meu filho. Temos que ensinar o que é certo aos jovens. No meu tempo, por exemplo, não havia droga. Eu tomava cerveja, cachaça, isso não era proibido. Você só não podia se exaltar. Veja só: eu tinha um jogador, o Almeida, meia-esquerda, que só jogava se tomasse antes da partida uma dose de caninha. Eu dava, mas ele nunca cometeu uma indisciplina, nunca disse qualquer ofensa, era uma beleza de jogador.

Além de dirigente, o senhor foi também o primeiro cronista esportivo do Ceará. Como foi criar a linguagem que até hoje é utilizada pelo rádio esportivo, vocês procuraram conhecer como era o trabalho em outros estados?
Caracas – As transmissões de jogos de futebol no rádio começaram no fim da década de 1930, quando a federação se desentendeu com a imprensa. O futebol ficou sem a palavra escrita. O capitão Juremir Pires de Castro, um gaúcho que era o presidente da federação, apoiava o jornal A Nota, onde eu trabalhava. Então ele levou a proposta à Ceará Rádio Clube, na época chamada de PRE-9, para que fosse formada a primeira equipe esportiva do rádio cearense. O José Cabral de Araújo narrava os jogos e eu era o repórter e fazia também os comentários. No dia seguinte, eu dava as notícias dos resultados de todos os jogos do Brasil e do mundo. Para isso, eu tinha um rádio-escuta: o Carlos de Sá Moreira, que ouvia tudo que acontecia pelo País e me repassava os resultados. No fim da década de 1930, só tinha eu como cronista esportivo em Fortaleza. Eu era o melhor e o pior.

Na minha época, os times tinham cinco atacantes. Hoje são só dois na frente. Como é que pode fazer gol?”

Nessa época o senhor era dirigente do Ferroviário e cronista esportivo. Como é que o senhor separava uma coisa da outra?
Caracas – Eu não misturava alhos com bugalhos. Quando eu era comentarista, esquecia o Ferroviário. Eu morava no Mondubim e vinha de cavalo para o Prado e depois o Presidente Vargas. Eu amarrava os cavalos na Escola Industrial, que depois virou a Escola Técnica (atual Centro Federal de Educação Tecnológica), e nem chegava perto do Ferroviário. Tem comentarista por aí que só falta engolir o microfone. Grita, torce… Não precisa disso. Tem muito radialista que mais torce do que dá opinião. Na minha época, todo mundo sabia que eu era Ferroviário, mas ninguém me questionava. Mas é porque eu não exagerava.

O senhor tem uma relação especial com o rádio não é? Pois em todas as suas fotos tiradas em casa que encontrei no O Povo há um aparelho ao seu lado.
Caracas – O rádio é meu companheiro, estou sempre ouvindo rádio. Daqui a pouco vou me deitar e o rádio me acompanha. O rádio dorme comigo, fica ligado direto. Ele me faz dormir e acordar. Ouço todas as rádios, gosto muito da Rádio O Povo. Ouço muito o Alan Neto, adoro as brincadeiras dele. Também gosto do Nonato Albuquerque, ele é um dos melhores radialistas do Ceará. Também gosto do Narcélio Limaverde. O pai dele, o José Limaverde, foi meu colega na Ceará Rádio Clube.

Existe um ditado que diz que quem não sabe jogar futebol vira jornalista esportivo ou dirigente. O senhor então não devia jogar muito bem, já que virou os dois…
Caracas – Eu jogava futebol, era o que se chama hoje lateral-direito. Na época o nome era half-direito, que fazia parte da linha média. Eu fui jogador do segundo quadro do Ferroviário, mas não era muito bom. Inclusive, discordo de muita coisa no futebol atual. Futebol não pode ser planejado, futebol é improviso. Valdemar Pimenta, um dos maiores treinadores do Brasil, uma vez me disse, lá por 1938: “dize-mes a linhamédia que possues que eu te direi o time que tens”. A formação naquele tempo era o 2-3-5. Hoje, você põe só dois jogadores na frente, isso não existe. Como é que pode fazer gol? E só quem pode fazer gol é o Romário, o atacante. O outro não pode. Isso é uma estupidez, é coisa desses malucos aí, esses treinadores. Em 1936, havia um ponta-esquerda do Fluminense chamado Hércules que fez 23 gols num campeonato. Em 1937, fez 23 gols de novo. Hoje, se um ponta-esquerda fizer um gol é muito. Quem tem que fazer gol é o centroavante, é o Romário. Por isso que ele fez 1.000 gols.

Tem radialista que só falta engolir o microfone. Quando eu era comentarista, esquecia o Ferroviário”.

O senhor foi vereador de Fortaleza na década de 1930, exatamente na época em que surgiu o Ferroviário. Sua base de votos foi a torcida do time?
Caracas – Fui eleito em 1936 e, em 1937, Getúlio Vargas deu o golpe que tomou meus direitos políticos. Não posso bater palmas ao Getúlio, ele fez justiça com as próprias mãos. Mas a grande maioria dos meus votos foi de operários, não foi de torcedores. Eu era líder da classe ferroviária. Mesmo assim, não foram muitos votos, foram cerca de cento e poucos. Naquele tempo havia poucos eleitores em Fortaleza. Perdi meu mandato no dia 10 de novembro de 1937, um dia depois do meu aniversário. O Getúlio comeu dois anos de minha vida.

O senhor exerceu vários cargos no Ferroviário, mas nunca foi presidente. Por quê?
Caracas – Porque nunca quis. O Ferroviário nunca poderia crescer tendo na presidência um operário ou um simples funcionário da RVC. Tinha que ser alguém com nome. Quando o Ferroviário nasceu, chamei um agrônomo, o doutor José Maciel, para virar o primeiro presidente do clube. Mas, principalmente a partir do momento em que tomei à frente do clube, quem mandava de verdade era eu. Eu fiscalizava tudo, acompanhava até mesmo o comportamento dos torcedores na platéia.

O Ferroviário esse ano não conseguiu vaga na Série C do Campeonato Brasileiro e passou todo esse semestre parado…
Caracas – (interrompendo) Essas perguntas aí você faz ao presidente do Ferroviário, uma pessoa que eu estimo muito.

Não gosto do Castelão. Lá é tudo desorganizado. Não tem locomoção para os torcedores, a polícia não garante segurança para o público. Por falar nisso, é um absurdo a polícia dizer que não tem como garantir policiamento nos grandes jogos. Tem que garantir”.

Calma aí, Caracas, o que eu quero saber é se o senhor está com saudade de ver o Ferroviário jogar. O senhor está com saudades do time?
Caracas – Se eu não estivesse numa idade tão avançada, estaria lá dentro, cuidando do Ferroviário. Espero que o Ferroviário volte logo à ativa. Ultimamente só vou aos jogos de dia, que começam às quatro horas da tarde, porque fica mais fácil voltar para casa (Caracas mora no Joaquim Távora). Fico na tribuna de honra do Presidente Vargas, onde o ex-chefe da Regional IV e hoje vice-governador, o professor Francisco Pinheiro, prometeu construir um memorial em minha homenagem. Mas não gosto do Castelão. Já saí do Castelão uma vez a pé até a minha casa no Mondubim. Até hoje nunca mais voltei lá. No Castelão é tudo desorganizado. Não tem locomoção para os torcedores, a polícia não garante a segurança do público. Por falar nisso, é um absurdo a polícia dizer que não tem como garantir o policiamento nos grandes jogos. Tem que garantir, quem não pode garantir sou eu e você. Enfim, não gosto do Castelão.

Existe muita polêmica entre os torcedores do Ferroviário se utilizam o apelido Ferrim ou Ferrão. O senhor prefere qual?
Caracas – Acho isso uma besteira, é tudo igual. O José Limeira foi quem começou com isso, ao dizer que chamar o Ferroviário de Ferrim era menosprezar o time. Você torce pelo time e isso é o que importa. Não me importa se chamam de Ferrim.

Qual é o sentimento de se chegar aos 100 anos?
Caracas – Acontece. Não gosto não, acho até que eu já devia ter morrido, para não dar trabalho aos outros. Além disso, morreram todos os camaradas meus: o doutor Telmo Bessa; o Gilvan Dias; o José Raymundo Costa, que morreu cedo demais, meu amigo de imprensa e do Partido Socialista; Blanchard Girão, um dos maiores amigos do trem, um homem que sempre ajudou o Ferroviário; e o José Rosa, grande fotógrafo. Sem contar a Anete, companheira de tantos anos. Sinto saudade de todos. Não faço nada de especial, minha alimentação não tem nada de diferente. Tô com essa idade porque acho que tenho sorte.

Perfil do entrevistado
Valdemar Cabral Caracas nasceu no dia 9 de novembro de 1907, em Pacoti (CE). Com sete anos, sua família veio para Fortaleza. Ainda jovem, ele começou a trabalhar no comércio, nas Lojas Samaritanas. No fim da década de 1920, entrou para a Rede de Viação Cearense (RVC), onde trabalhou como escriturário e foi diretor. No futebol, é considerado um ícone da torcida do Ferroviário, clube que ajudou a fundar, em 1933, e no qual foi técnico e diretor. Foi ainda o primeiro cronista esportivo do Estado, sendo repórter, comentarista e noticiarista da primeira equipe de esportes da Ceará Rádio Clube, no fim da década de 1930, além de correspondente do Jornal do Brasil e do Jornal dos Sports, ambos do Rio de Janeiro. Caracas fundou o Humaytá e foi sócio-fundador do Maguary, embora não tenha feito parte do grupo fundador do clube. Entre 1936 e 1937, foi ainda vereador de Fortaleza. Tem uma filha, quatro netos e um bisneto.
Bastidores da entrevista

Valdemar Caracas parece ter boa memória para algumas coisas e ruim para outras. Ele lembrou de datas de oito décadas atrás, citou vários nomes de pessoas do passado, mas esqueceu da entrevista que tinha combinado com o repórter apenas dois dias antes.

O dirigente está com boa saúde. Dizendo-se “independente”, ele faz questão de mostrar que se levanta da cadeira sozinho, rejeita ajuda para vestir sua camisa do Ferroviário e diz que não precisa de bengala. No entanto, ele ouve com dificuldade e perdeu parte da visão.

Valdemar Caracas não fala muito sobre a esposa, Anete Brasil Caracas, que morreu em 2006, aos 93 anos. Quando o repórter ameaçou tocar no assunto, a empregada da casa interveio. Mesmo assim, Caracas disse depois que sente saudades de Anete, com quem foi casado durante 72 anos.

Tia de Edilson Brasil Soares, fundador do Colégio 7 de Setembro, a esposa de Caracas era professora. Torcedora ardorosa do Ferroviário, ela sempre ia aos jogos ao lado do marido.

No fim da entrevista, o repórter disse “Para encerrar”, seguido da última pergunta. Como Caracas sempre falava algo interessante, o repórter seguia com mais um “Para encerrar…”, acompanhado de nova pergunta. Na terceira vez, Caracas não se conteve: “Diabéisso, você sempre diz que vai encerrar e não encerra nunca?”. Até a empregada caiu na gargalhada.

Saiba mais

Humaytá
O Humaytá Sport Club começou no subúrbio e disputou o Campeonato Cearense entre 1923 e 1925. Não há registro preciso da data de fundação.

Maguary
Fundado no dia 24 de junho de 1924, o Sport Club Maguary foi um dos clubes mais elitizados de Fortaleza, tendo conquistado o Campeonato Cearense em 1929, 1936, 1943 e 1944. O clube paralisou a equipe de futebol em 1945, após perder o tricampeonato. Em 1972, o Maguary voltou ao Campeonato Cearense, mas, em 1975, o clube fechou definitivamente e vendeu a sede social. (Nota do Verminosos: o Maguary foi reativado em 2009)

Liga Metropolitana de Football
Fundada em 1915, por Alcides Santos, foi a precursora do Campeonato Cearense, lançado em 1920. Os cinco torneios promovidos pela entidade, entre 1915 e 1919, foram vencidos pelo Ceará. O pentacampeonato não é reconhecido pela Federação Cearense de Futebol (FCF). (Nota do Verminosos: o pentacampeonato acabou reconhecido em 2008)

Ceará Rádio Clube (PRE-9)
Inaugurada em 28 de agosto de 1931, por iniciativa de João Dummar, pai de Demócrito Dummar, presidente do O Povo, foi a primeira rádio de Fortaleza. Em 24 de dezembro de 1939, tornou-se a primeira emissora a transmitir um jogo do Campeonato Cearense: Estrela do Mar 4×1 Maguary.

Campo do Prado
Inaugurado em 1913, foi o principal estádio de Fortaleza até o surgimento do PV, em 1941. O campo foi reduzido e se encontra hoje no Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet). (Nota do Verminosos: após a entrevista, o que restava do campo deu lugar a um ginásio)

Arquivo PDF da entrevista publicada em 2007:

Entrevista – Valdemar Caracas pag 1
Entrevista – Valdemar Caracas pag 2


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