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Viagem no tempo

Colômbia disse “não” à Fifa na Copa de 1986

Texto de Mauricio Brum, cedido pelo blog Impedimento. Como preservamos o bem público, como sabemos que o desperdício é imperdoável, […]

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Governo da Colômbia desistiu da Copa do Mundo diante das exigências da Fifa (Fotos: Divulgação)

Texto de Mauricio Brum, cedido pelo blog Impedimento.

Como preservamos o bem público, como sabemos que o desperdício é imperdoável, anuncio a meu povo que o Mundial de Futebol de 1986 não se realizará na Colômbia, após consulta democrática sobre quais são as necessidades reais do país: não se cumpriu a regra de ouro, segundo a qual o Mundial deveria servir à Colômbia e não a Colômbia servir à multinacional do Mundial. Aqui temos outras coisas a fazer, e não há sequer tempo para atender às extravagâncias da Fifa e seus sócios. García Márquez compensa totalmente o que perdemos em vitrine com o Mundial de Futebol”.

Essas foram as palavras, e apenas estas, as que compuseram o brevíssimo discurso do presidente Belisario Betancur na noite de 25 de outubro de 1982, quando a Colômbia confirmou oficialmente sua renúncia à condição de sede da Copa do Mundo de 1986. Apenas quatro dias antes, Gabriel García Márquez havia sido anunciado como vencedor do Nobel de Literatura. O uruguaio Mario Benedetti escreveu: “Não sei se o Prêmio Nobel acrescentará algum prestígio a García Márquez, mas é certo que García Márquez fará com que o Nobel recupere um pouco de seu crédito”. Na opinião do presidente colombiano, o reconhecimento de Gabo também serviria para redimir o país perante o mundo.

A Colômbia em meio ao turbilhão: o futebol vira negócio

Mas, afinal, o que fez a Colômbia desistir da Copa? Para chegar a outubro de 1982, é necessário voltar à metade da década anterior. Desde o momento em que recebeu a incumbência até a abertura do Mundial que nunca veio, o país teria contado com 12 anos de preparação – tempo de sobra para organizar os orçamentos com vistas ao evento. O honroso discurso de Betancur na verdade nascia de duas questões com as quais o Brasil se depara hoje: por um lado, a extrema letargia do governo para dar início às obras de infraestrutura; por outro, os caprichos da Fifa. O susto da Colômbia frente às demandas da entidade foi maior do que o do Brasil, pois aqui se conheciam de antemão as exigências – no caso colombiano, as cobranças aumentaram no meio do caminho, quando o país já tinha a bomba nas mãos.

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A imprensa colombiana fez uma cobertura que apontava as pressões da Fifa, situação parecida com a de 2014

A nomeação colombiana para sediar a Copa ocorreu em 9 de junho de 1974. Foi em meio ao 39º Congresso da Fifa, celebrado na Alemanha pouco antes do Mundial daquele ano. Se em 1966 a Fifa chegara a definir várias sedes numa tacada só, determinando quem receberia as quatro Copas seguintes, até 1982, desta vez a Colômbia foi prudentemente nomeada em solitário. Havia uma boa razão para não amarrar coisas demais para os anos vindouros: aquela reunião em Frankfurt se prometia importantíssima para o futuro. Não por causa da candidatura colombiana. Foi nesse mesmo congresso que o inglês Stanley Rous se tornou o único presidente da Fifa a perder uma reeleição. Dois dias depois de a Colômbia ser anunciada como sede de 1986, João Havelange assumiu o comando da entidade. E nada mais foi igual.

Havelange conquistou o cargo após amealhar votos das nações excluídas pela política eurocêntrica de Rous, percorrendo países africanos e asiáticos em busca de apoio. Com o brasileiro na presidência, a Fifa converteu o futebol em um negócio que passou a dar cada vez mais dinheiro. Em meio a conversas obscuras, apertos de mãos com ditadores e inúmeros interesses que renderiam denúncias anos mais tarde, Havelange cumpriu a promessa de campanha e aumentou a participação dos países menores: em 1982, mudou o sistema de vagas que persistia desde 1954 e criou oito lugares extras na Copa do Mundo, que passou a acolher 24 equipes. O brasileiro firmou os primeiros contratos milionários com a Adidas e a Coca-Cola e, como contrapartida para os lucros, impôs encargos mais pesados aos países que desejavam a Copa.

Lentidão e promessas jamais cumpridas

A Colômbia dormia quando surgiu a notícia de que seria a sede – eram quatro e meia da manhã no país no momento em que o Congresso de Frankfurt confirmou –, e seguiu dormindo pelos oito anos seguintes. As ideias faraônicas foram apenas ideias e, na prática, o único projeto de vulto a sair do papel foi o Estádio Metropolitano de Barranquilla, inaugurado em maio de 1986 – a tempo da Copa do Mundo que, naquela altura, já estava havia três anos nas mãos do México. Entre os planos que ficaram só no papel aparece a restauração do Estádio El Campín, em Bogotá. Um dos desenhos apresentados previa a construção de uma torre de 32 andares anexa à cancha, com um restaurante giratório no topo, que pretendia ser o grande símbolo do torneio.

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Jornal El Tiempo, de 22/4/1982

A sonolência da organização não assustou no começo, mas, no início de 1982 e com somente quatro anos pela frente, a Fifa e a imprensa internacional passaram a questionar a preparação colombiana. O próprio governo engrossava a lista de dúvidas, descontente com a ideia de investir pesado na competição. Em fins de abril, apareceu a notícia supostamente redentora: graças aos empresários locais, o Mundial estava confirmado, e seria inteiramente financiado pela iniciativa privada. O presidente Julio César Turbay aceitou as condições propostas. Saiu da reunião animado com a promessa de que as empresas bancariam as reformas nos estádios, na infraestrutura para imprensa e no setor hoteleiro, cabendo ao governo apenas reforçar suas tarefas de sempre – melhorar as telecomunicações e garantir a segurança do evento.

Quem também exultou foi Alfonso Senior, presidente da Federação Colombiana de Futebol e idealizador da candidatura em 1974. “Hoje é o dia mais feliz da minha vida. Eu sabia que a Colômbia não poderia ficar mal diante do mundo inteiro”, disse. Só que no meio do caminho houve uma eleição. A Copa do Mundo entrou em pauta e os candidatos se viram obrigados a coincidir: se o dinheiro fosse privado, tudo certo. Se não fosse, era uma opinião da qual preferiam se esquivar. Não se sabe qual postura teria sido adotada pelo governo se Turbay conseguisse eleger um sucessor, mas, em 30 de maio de 1982, foi a oposição quem venceu: após oito anos alijado do poder, o Partido Conservador voltou à presidência com Belisario Betancur. Seria ele a ocupar a poltrona principal da Casa de Nariño quando a Fifa encaminhou ao país aquilo que a imprensa, os políticos e boa parte da população definiram como “condições impossíveis”.

Para a Fifa, tudo…

Três meses depois das manchetes inspiradoras, os títulos dos jornais se tornaram mais sombrios. O Mundial 86 voltou a perigar. No final de julho, a uma semana da posse de Betancur, a Fifa enviou à Colômbia um ofício cobrando uma resposta do país até o dia 10 de novembro. Nele, afirmava que era impossível um torneio financiado apenas pela iniciativa privada, e listava uma série de exigências, muitas das quais não haviam sido feitas antes. Havia caprichos, como a demanda por 120 carros (50 deles de luxo) para transportar dirigentes da entidade, além de escritórios com todas as facilidades em hotéis cinco estrelas. Havia pedidos realizáveis, como a limitação de impostos sobre o valor dos ingressos ou o congelamento das diárias dos hotéis. E havia cobranças impossíveis e inéditas – uma das mais espantosas dizia ser imprescindível a existência de uma rede ferroviária interligando as cidades-sede para transporte de passageiros, algo que a Colômbia não possuía e sequer seria eficiente com a topografia do país.

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Jornal El Tiempo, de 29/9/1982

As cidades-sede, aliás, tornaram-se um problema enorme. Quando o país pleiteou a vaga, a Copa do Mundo era muito menor, em termos financeiros e no número de times. A Copa de 1978 havia sido jogada em apenas seis canchas, cinco delas com menos de 50 mil lugares. Mas desde lá a quantidade de seleções aumentara em 50%, gerando uma demanda que fugia ao projeto colombiano. O comitê organizador trabalhava com um máximo de oito sedes. A FIFA passou a exigir doze. E cobrou, ainda, estádios com 40 mil lugares para a primeira fase, 60 mil para a segunda, e 80 mil para a abertura e a final. Naquele momento a Colômbia possuía apenas dois estádios – em Cali e Bogotá – capazes de atender a exigência mínima. Nenhum deles chegava aos 60 mil.

“Fomos a sede do ridículo durante oito anos”, reconheceu Alfonso Senior. “Mas renunciar é morrer. Se deixamos escapar a oportunidade, poderão se passar cem anos até que o país tenha outra chance assim”. Senior admitia ser impossível se adequar às exigências a tempo. Propunha que a Colômbia tentasse postergar a realização do Mundial em oito anos, afirmando que as obras seriam necessárias mais cedo ou mais tarde. Durante alguns dias, falou-se na possibilidade de o Brasil trocar “sua” Copa do Mundo com a Colômbia, passando a receber o torneio em 1986 e cedendo a edição de 1994. A proposta já nascia morta, pois os brasileiros ofereciam algo que nunca tiveram: jamais haviam sido designados para receber a competição de 94. Mais tarde, quando a Colômbia saiu de cena definitivamente, o Brasil voltou a cogitar a Copa de 86.

…ou nada?

Logo começaram a surgir projeções de gastos. Calculou-se que cada lugar nos estádios custaria, em média, 3 mil dólares para ser construído. O custo total da Copa foi estimado em 1,5 bilhão de dólares, cerca de 3,6 bilhões em valores atualizados. O repúdio à Copa foi mais pragmático que romântico: a Colômbia pôde desistir principalmente porque não havia iniciado nenhuma grande obra (ao contrário do Brasil/2014), e o contexto de troca de governo facilitava a abdicação dentro de um discurso de mudança. A opinião pública era favorável. As principais centrais sindicais do país lançaram notas contra a gastança e cresceu a teoria de que a FIFA impunha entraves para, “diplomaticamente”, tirar o Mundial da Colômbia e vendê-lo a quem pagasse mais. Acreditava-se cegamente que a Coca-Cola levaria o torneio para os Estados Unidos. Ainda assim, ao final da Copa do Mundo da Espanha, em julho, exibiu-se o convite: “esperamos vocês na Colômbia em 86”.

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Pôster que ficou para a história: a Copa do Mundo que não ocorreu – pelo menos no país inicialmente pretendido

Betancur, por sua vez, estava longe de ser o tipo de líder capaz de encabeçar o projeto mundialista, mesmo que tivesse a intenção. Seu governo foi marcado por tentativas de negociação com as FARC e outros grupos extremistas, e pelos fracassos dessas iniciativas, em boa parte por sua incapacidade de controlar as Forças Armadas regulares, que passaram a armar milícias para combater as guerrilhas no interior do país e romperam vários acordos de cessar-fogo. A Colômbia começava a viver o auge da violenta guerra do narcotráfico que marcou seu fim de século. Já não havia dúvidas quanto ao desfecho da história quando o presidente veio em cadeia nacional para sugerir, com inegável populismo, que o país abria mão de estádios em nome de investimentos mais úteis. Nos dias seguintes, o jornal El Tiempo saiu às ruas de Bogotá para ouvir a população sobre a desistência. Um dos ouvidos pela enquete foi um arquiteto chamado Héctor Ruano:

“A Fifa se mete onde não lhe corresponde, pois suas exigências invadem as questões internas do país. Eu estou de acordo que peça respeito a certas normas de caráter esportivo, mas o resto devem ser recomendações. A Fifa não pode fazer essas exigências, porque é ela quem tira a melhor fatia do bolo, e não investe um só centavo”.

A opinião poderia ser ouvida hoje, em qualquer cidade do Brasil.


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