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Papo sério

#FutebolAtrásDasGrades #3 – Presídio do Ceará investe em costura de bolas para ocupação de detentos

Presos de Itaitinga trabalham 40h semanais fabricando bolas destinadas a escolas públicas
Postado por Rafael Luis Azevedo - 19/jun/2017
O projeto Mãos Livres produz 200 bolas de futebol por mês (Foto: Carlos Gibaja e Max Marduque/Governo do Ceará)

O projeto Mãos Livres produz 200 bolas por mês (Foto: Carlos Gibaja e Max Marduque/Governo do Ceará)

Por Larissa Cavalcante e Rafael Luis Azevedo

As mãos se cruzam ágeis, e assim agulha e linha vão fazendo os gomos tomarem forma. Ao fim do dia, é mais uma bola pronta pra rolar em campos e quadras. Poderia ser uma fábrica de material esportivo como qualquer outra, se não estivesse dentro do Centro de Execução Penal e Integração Social Vasco Damasceno Weyne (Cepis), em Itaitinga, a 27 km de Fortaleza.

Esse é o projeto Mãos Livres, lançado em 2015 pela Secretaria de Justiça do Ceará (Sejus). A ideia é ocupar presos com trabalho, na costura de bolas de futebol. De segunda a sexta, eles cumprem expediente de 40 horas semanais. No Cepis, o maior presídio do Estado, cerca de 30 detentos participam do serviço, sentados em cadeiras num dos galpões industriais da unidade.

Não há conforto, como mesas de apoio. Por segurança os presos não podem portar tesouras, então a linha de seda é cortada com o dente. O jeitinho é o instrumento da força de vontade. Assim, cada detento produz uma bola por dia. Por mês, a equipe faz 200 bolas, que são encaminhadas para escolas públicas estaduais e municipais, além de projetos sociais.

“O ócio é um mau no presídio. A costura de bolas é uma ocupação em que o preso pode se concentrar em uma habilidade específica”, aponta Cristiane Gadelha, titular da Coordenadoria de Inclusão Social do Preso e do Egresso (Cispe). “Conviver com alguém que está fazendo uma mesma coisa cria o sentimento de coletividade. Isso é positivo”.

A participação é voluntária. Em contrapartida, os presos recebem R$ 3 por bola. Em média, até R$ 60 por mês. Valor simbólico, que se soma a uma motivação mais importante: a cada três dias de trabalho, reduz-se um dia de pena. “A maioria vem não é pelo dinheiro, é pela remição”, indica Francisco de Oliveira, de 54 anos, preso que coordena a equipe.

“O ócio é um mau no presídio. A costura de bolas é uma ocupação em que o preso pode se concentrar em uma habilidade específica”. (Cristiane Gadelha, coordenadora da Cispe/Sejus)

O detento cumpre pena há sete anos – ele não diz o motivo, e nem a Sejus. Desde o início cuida do projeto das bolas, que já tem uma década e foi incorporado ao Mãos Livres. “90% dos que fazem a costura de bolas viram pessoas melhores. Até o tratamento do agente com o preso que trabalha é diferente”, garante Francisco, que se prepara para passar para o regime semiaberto.

Tão esperada quanto a liberdade é sua participação no evento em que a Sejus fará a entrega de 3 mil bolas a escolas públicas, ainda sem data marcada. Diante do governador Camilo Santana, ele espera ter a palavra. “Eu quero contar a minha história, e eles vão ficar abismados com a quantidade de bolas que passou por mim”, registra o preso.

  • O trabalho garante ao preso R$ 3 por bola e um dia a menos de pena a cada três de serviço (Foto: Adriano Paiva/Verminosos por Futebol)
  • O trabalho garante ao preso R$ 3 por bola e um dia a menos de pena a cada três de serviço (Foto: Adriano Paiva/Verminosos por Futebol)
  • O trabalho garante ao preso R$ 3 por bola e um dia a menos de pena a cada três de serviço (Foto: Carlos Gibaja e Max Marduque/Governo do Ceará)
  • O trabalho garante ao preso R$ 3 por bola e um dia a menos de pena a cada três de serviço (Foto: Carlos Gibaja e Max Marduque/Governo do Ceará)
  • Cristiane Gadelha, coordenadora da Cispe/Sejus, espera a ampliação do projeto de costura de bolas (Foto: Adriano Paiva/Verminosos por Futebol)
  • O Cepis é uma das quatro prisões do Complexo Penitenciário Itaitinga II (Foto: Adriano Paiva/Verminosos por Futebol)

Referência entre presos

O projeto da costura de bolas também é executado na Casa de Privação Provisória de Liberdade Elias Alves da Silva (CPPL IV), prisão localizada no mesmo Complexo Penitenciário Itaitinga II. Os trabalhos ainda contam com a vertente da fabricação de redes esportivas, no momento suspensa por falta do material adquirido via licitações.

Graças à referência do Cepis na ocupação de presos através de trabalho, educação e esporte, os próprios detentos buscam a transferência para o presídio, constata a direção da unidade. Com a mudança de comportamento daqueles que fazem bolas, a Sejus agora deseja a ampliação do projeto. “A gente quer levar esse exemplo para todo o estado”, planeja Cristiane.

Os presos se dizem transformados graças à fabricação de bolas. “É muito gratificante ver que nós somos usados pelo bem comum da sociedade”, reflete José Sales, de 50 anos, preso há sete por aliciamento de menores. “Pessoas vão ter alegrias através de nossas mãos”, reforça. É torcer que agulha e linha costurem um novo destino em suas vidas.

> Larissa Cavalcante é mestranda em Administração pela UFC, e desenvolve pesquisa sobre empreendedorismo em penitenciárias cearenses.

Veja reportagem em vídeo:

Confira as outras reportagens da série #FutebolAtrásDasGrades:

1 – Presídio cearense aposta em futebol para reinserir detentos à sociedade.

2 – Presídio cearense promove torneio de futebol para socialização de presos.

4 – Presos fabricam uniformes esportivos como remição de pena no Ceará.

5 – “Todos merecem uma segunda chance”, defende coordenadora da Sejus.

Conheça o autor

Rafael Luis Azevedo

O jornalista Rafael Luis Azevedo, 34 anos, é editor do site Verminosos por Futebol desde 2012. É também coordenador do portal Tribuna do Ceará, e teve passagens por jornal O Povo, O Povo Online e TVs Jangadeiro/SBT, O Povo/Cultura e Cidade/Record. Já fez reportagens para as revistas Four Four Two (ING), So Foot (FRA), Courrier International (FRA) e Placar, os sites BBC Brasil, Vice e Agência Pública e as TVs France 2 (FRA), France 24 (FRA) e Fusion (EUA). Já venceu 21 prêmios de jornalismo, incluindo Esso, Embratel e Petrobras, cobriu duas Copas do Mundo in loco e foi co-autor de livros sobre o Ceará e o estádio Presidente Vargas.

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